Os artigos publicados neste Blog têm o intuito de educar e desmistificar crenças populares acerca do câncer de mama, assim como de todas as condições mamárias benignas e malignas que afetam a saúde da mulher.
Ao longo do material, você pode encontrar termos populares que não correspondem aos termos médicos corretos. Recorremos a este recurso para facilitar a compreensão e o entendimento das condições mamárias e, assim, conscientizar a população sobre os cuidados necessários para a prevenção e tratamento dessas condições.

O conteúdo deste artigo foi revisado pelo Dr. Felipe Andrade, Mastologista Titular no Centro de Oncologia do Einstein Hospital Israelita, Doutor em Ciências da Saúde (Sírio-Libanês), membro da Sociedade Brasileira de Mastologia e da American Society of Breast Surgeons, e atuante em sua clínica privada, a Clínica FEMA.
Entenda o que o percentual do Ki-67 revela sobre a proliferação do tumor, sem transformar um número isolado em veredito
O Ki-67 no câncer de mama aparece no laudo como um número, e a dúvida é imediata: esse percentual é ruim? O marcador mede a velocidade com que as células do tumor se dividem, mas esse dado isolado não determina a gravidade do câncer de mama.
Este conteúdo explica o que o Ki-67 mede e por que a interpretação exige olhar para o conjunto de biomarcadores.
Ele parte de onde o diagnóstico do câncer de mama chegou: você já sabe que existe um tumor e quer entender o que a biologia dele significa.
O que é Ki-67?
Um marcador relacionado à proliferação celular.
Ki-67 é uma proteína presente no núcleo de células em divisão, medida por imuno-histoquímica para estimar a proporção de células tumorais em proliferação.
O International Ki67 Working Group (IKWG) reconhece a validade prognóstica do marcador em contextos específicos, mas aponta limitações de padronização e de utilidade clínica.
O resultado costuma aparecer em porcentagem.
O laudo mostra o Ki-67 como porcentagem: 5%, 20%, 40%. O número indica a proporção de células tumorais que apresentam expressão do Ki-67, marcador associado à atividade proliferativa.
Onde o marcador de proliferação celular aparece no exame?
O material vem da biópsia ou da peça cirúrgica.
A imuno-histoquímica revela, sob o microscópio, quais células expressam cada proteína, transformando tecido em número no laudo. O Ki-67 costuma ser interpretado em conjunto com outros marcadores do painel imuno-histoquímico, como:
- Receptor de Estrogênio (RE): indica se o tumor responde a estrogênio;
- Receptor de Progesterona (RP): indica resposta à progesterona;
- Receptor HER2: proteína ligada ao crescimento celular, com implicações terapêuticas específicas;
- Ki-67: estima a velocidade de proliferação das células tumorais.
Essa combinação, e não uma sigla isolada, ajuda a caracterizar o perfil biológico do tumor.
Aprofunde-se: HER2-positivo: significado, diagnóstico e tratamento
Ki-67 alto significa que o câncer é mais agressivo?
Um Ki-67 mais elevado indica maior proliferação, mas não pode ser lido sozinho como medida de gravidade: a avaliação também considera grau histológico, tamanho do tumor, linfonodos, RE, RP, HER2 e estágio.
O IKWG ressalta que a utilidade clínica do marcador tem limitações e exige contexto. A proliferação é uma peça do quadro, não o quadro inteiro.
Quando o Ki-67 é considerado alto?
Não existe um único ponto de corte universal para todas as situações.
Muito conteúdo resume o Ki-67 a uma frase: acima de 20% é alto. Essa regra não existe na prática clínica; o corte depende do contexto, do subtipo tumoral e do método do laboratório.
O que significam os valores de 5% e 30% nas recomendações internacionais?
Em 2021, o IKWG concluiu, para câncer de mama inicial RE-positivo/HER2-negativo em estágios I ou II, que os extremos têm maior utilidade prognóstica:
- Ki-67 ≤5% e Ki-67 ≥30%: valores extremos que podem auxiliar na estimativa prognóstica nesse grupo específico de pacientes.
Valores intermediários são mais difíceis de usar isoladamente, porque a reprodutibilidade da leitura cai nessa faixa.
Então, Ki-67 de 20% é alto?
Um valor de 20% não deve ser lido como alto ou baixo para todas as pacientes. A aprovação inicial do abemaciclibe pela FDA, para um grupo de alto risco, exigia Ki-67 ≥20%.
Em março de 2023, a FDA retirou essa exigência, passando a definir o grupo por linfonodos, tamanho e grau. O exemplo mostra que 20% nunca foi corte universal.
Ki-67 de 30% é alto?
Segundo a padronização do IKWG, 30% ou mais representa proliferação alta em câncer de mama inicial RE-positivo/HER2-negativo. Mas esse número, sozinho, não determina estágio, chance de cura, necessidade de quimioterapia ou prognóstico final.
Ki-67 de 40% ou 50% é muito grave?
Um Ki-67 de 40% ou 50% indica que uma proporção elevada das células avaliadas está em atividade proliferativa.
Isso sugere proliferação alta, mas não permite concluir isoladamente que o câncer seja muito grave. O resultado precisa ser interpretado em conjunto com a biologia do tumor e a extensão da doença.
Ki-67 baixo significa que o câncer não é agressivo?
Também não. Um índice baixo de proliferação é favorável sobre esse aspecto da biologia do tumor, mas não substitui a avaliação das demais características: RE, RP, HER2 e Ki-67 se leem em conjunto, porque nenhum marcador isolado define o tumor.
Ki-67 define se a paciente precisa de quimioterapia?
Não isoladamente.
O Ki-67 informa sobre proliferação e prognóstico em contextos específicos, mas a decisão sobre quimioterapia, Endocrinoterapia no câncer de mama ou outro tratamento sistêmico considera idade, tamanho, linfonodos, grau, RE, RP, HER2, estágio e, quando indicados, testes genômicos.
Quando a Endocrinoterapia faz parte da estratégia terapêutica, medicamentos como tamoxifeno e letrozol também podem aparecer ao longo do tratamento, conforme as características do caso. Dizer que Ki-67 alto significa quimioterapia é uma equivalência inadequada.
Qual a relação entre Ki-67 e o grau do tumor?
Grau histológico e Ki-67 não são a mesma coisa: o grau avalia características morfológicas das células e do tecido, enquanto o Ki-67 avalia proliferação. Um tumor de grau alto tende a ter Ki-67 mais elevado, mas essa relação não é automática.
Qual a relação entre Ki-67 e Luminal A ou Luminal B?
Entre os tipos de câncer de mama, o Ki-67 ajuda a diferenciar os subtipos luminais: Luminal A tende a proliferação mais baixa, enquanto o câncer de mama Luminal B costuma ter Ki-67 mais elevado.
Mas um percentual isolado não define o subtipo; depende também de RE, RP, HER2, grau e contexto patológico.
Qual a relação entre HER2 e Ki-67?
São biomarcadores diferentes. O HER2 é um receptor com implicações terapêuticas específicas, e seu status também influencia a sobrevida no HER2-positivo. O Ki-67 estima proliferação. Um não substitui o outro: ambos compõem o mesmo painel.
Por que o valor do Ki-67 pode variar?
O resultado sofre influência de fatores técnicos, não só biológicos: a forma como a amostra foi processada, a técnica de coloração, a área do tumor analisada e o método de leitura, visual ou digital.
O IKWG dedicou parte de suas recomendações à padronização, porque a variabilidade entre métodos é uma das limitações do marcador.
Isso não invalida o exame: explica por que números próximos não devem ser comparados sem contexto.
Como interpretar o Ki-67 no laudo do câncer de mama?
A leitura funciona melhor como sequência, não como número isolado:
- Ver o percentual de Ki-67;
- Avaliar RE e RP;
- Avaliar o status do HER2;
- Considerar o grau e as características histológicas;
- Considerar o estágio e as características clínicas;
- Integrar tudo para definir a estratégia de tratamento do câncer de mama.
O que o percentual do marcador de proliferação celular pode e não pode dizer sozinho?
| Situação no laudo. | O que o resultado ajuda a indicar. | O que não é possível concluir apenas pelo Ki-67. |
| Ki-67 de 40% ou 50%. | Indica que uma proporção elevada das células tumorais avaliadas apresenta expressão do marcador de proliferação. | Não significa 40% ou 50% de risco de metástase, recorrência ou mortalidade e não determina, sozinho, a gravidade do câncer. |
| Ki-67 diferente na biópsia e na cirurgia. | Os valores podem variar porque foram avaliadas amostras diferentes do tumor e porque coleta, processamento e método de leitura também interferem no resultado. | A diferença entre os dois percentuais não significa automaticamente que um dos exames esteja errado. |
| Ki-67 elevado e decisão sobre tratamento. | O marcador pode contribuir para a avaliação da biologia e do prognóstico em determinados contextos. | Um índice elevado não significa automaticamente indicação de quimioterapia. A decisão depende também de RE, RP, HER2, grau, estágio, tamanho tumoral, linfonodos e outras características clínicas. |
| Mesmo Ki-67 em duas pacientes. | O percentual pode ser numericamente igual nos dois laudos. | Isso não significa que os tumores tenham o mesmo comportamento ou que as pacientes receberão o mesmo tratamento, porque as demais características do câncer podem ser diferentes. |
Por que dois cânceres de mama podem ter Ki-67 diferentes?
Câncer de mama não é uma única doença: o termo reúne tumores com comportamentos biológicos diferentes, do câncer de mama triplo negativo aos subtipos luminais.
Por isso, a comparação direta de Ki-67 entre laudos de pacientes distintos raramente faz sentido clínico.
A interpretação do laudo deve ser individualizada.
Receber um laudo com RE, RP, HER2 e Ki-67 pode gerar ansiedade, porque são diferentes siglas e percentuais apresentados ao mesmo tempo.
A interpretação desses resultados deve considerar o conjunto das características do tumor. Nenhum marcador isolado define, sozinho, a gravidade, o prognóstico ou a estratégia de tratamento.
Por isso, o Ki-67 precisa ser analisado junto aos receptores hormonais, ao HER2, ao grau histológico, ao estágio da doença e às demais informações clínicas e patológicas.
Atendimento personalizado para seu caso no Einstein Hospital Israelita e na CLÍNICA FEMA.
Se você recebeu um diagnóstico de câncer de mama e tem dúvidas sobre Ki-67, HER2 ou receptores hormonais, entender o laudo com apoio especializado ajuda a transformar esses números em um plano de cuidado claro.
Conheça o Dr. Felipe Andrade

O Dr. Felipe Andrade é um médico mastologista com formação em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC. Complementou sua formação com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).
O Dr. Felipe Andrade possui especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e em Mastologia pela Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM).
Adicionalmente, é membro titular da American Society of Breast Surgeons (ASBrS) e possui doutorado em Ciências da Saúde pelo Hospital Sírio-Libanês.
Atualmente, o Dr. Felipe Andrade atua como mastologista titular no Centro de Oncologia do Einstein Hospital Israelita e em sua clínica privada, a Clínica FEMA, localizada no bairro Indianópolis, na cidade de São Paulo, SP.
Conheça mais sobre seu trabalho no perfil do Instagram @cancerdemamaonline.
Perguntas frequentes sobre Ki-67 no câncer de mama
Ki-67 é um marcador de proliferação celular. Seu resultado, geralmente em porcentagem, ajuda a estimar a proporção de células tumorais em atividade proliferativa.
Um Ki-67 elevado sugere maior proliferação, mas não determina sozinho a gravidade, o estágio ou o prognóstico. Deve ser interpretado junto com outras características do tumor.
Não existe um ponto de corte universal. Em câncer inicial RE-positivo/HER2-negativo, o International Ki67 Working Group considera valores ≥30% mais úteis para identificar alta proliferação; valores intermediários são mais difíceis de interpretar isoladamente.
Não isoladamente. O valor já foi usado como corte em estudos e contextos terapêuticos específicos, mas não é definição universal. A FDA retirou, em 2023, a exigência de Ki-67 ≥20% para a indicação ampliada do abemaciclibe em um grupo de alto risco.
O Dr. Felipe Andrade está comprometido em fornecer informações médicas precisas sobre as condições mamárias. Para tornar certos temas mais acessíveis, ele pode recorrer ao uso de termos populares.
Embora possam ser inadequados em relação à terminologia médica correta, este recurso visa capacitar a população com conhecimento e facilitar o diálogo com os profissionais de saúde.




